A voz dos trabalhadores no centro das transformações
Entrevista com Rogério Nogueira, coordenador da Comissão de Trabalhadores
Entrevista com Rogério Nogueira, coordenador da Comissão de Trabalhadores
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A voz dos trabalhadores no centro das transformações
Num momento em que a Volkswagen Autoeuropa vive um ciclo de grandes mudanças — com o lançamento do novo T-Roc, a preparação para a chegada do ID. Every1 e a implementação do Acordo Laboral 2024/2025 —, ouvimos o coordenador da Comissão de Trabalhadores (CT), Rogério Nogueira, para conhecer a perspetiva de quem representa os interesses dos colaboradores no dia a dia. Nesta entrevista, falamos sobre os avanços conquistados, os desafios das negociações, o futuro da produção e o papel da CT na construção de um ambiente laboral mais participativo e sustentável.
Que balanço faz a CT sobre o Acordo 2024/ 2025?
O balanço que fazemos é positivo. Foi um acordo difícil, com momentos de incerteza, mas conseguimos garantir avanços importantes e defender direitos essenciais dos trabalhadores.
Quais foram os principais ganhos para os trabalhadores neste acordo?
Foram vários os ganhos salariais, com destaque para o aumento que, pela primeira vez na história, chegou aos 100€ em 2024. A majoração do prémio de objetivos permitiu alcançar o maior valor de sempre (2287€), e teremos ainda, no final do ano, o prémio de lançamento. Estes foram, sem dúvida, os principais ganhos do acordo. Importa também referir que, fora do âmbito do acordo laboral, conseguimos garantir o pagamento do lay-off a 100%, o que foi igualmente muito positivo.
Houve algum aspeto que tenha ficado aquém das expetativas? Como se pretende abordá-lo no futuro?
Sim, nem tudo foi como gostaríamos. A questão das progressões de carreiras, por exemplo, a empresa poderia e devia ter ido mais longe, a valorização e reconhecimento profissional é sem dúvida uma lacuna enorme ao nível geral, defendemos também um plano demográfico que ajude a preparar, com dignidade, a passagem para a reforma daqueles que deram muitos anos de trabalho à empresa. Vamos continuar a trabalhar nestes e noutros temas nas próximas negociações.
Que feedback tem recebido dos colaboradores desde a implementação das medidas acordadas?
De forma geral, o feedback tem sido positivo, com os trabalhadores a reconhecerem os avanços alcançados. Além do impacto direto das medidas, foi valorizado o facto de o segundo ano do acordo estar associado à perda de poder de compra, algo especialmente importante num contexto de grande incerteza mundial. Naturalmente, também recebemos sugestões e críticas construtivas, que levamos em conta para melhorar nas próximas negociações.
Para quando está previsto o início das negociações?
Tendo em conta que o atual acordo termina a 31 de dezembro de 2025, a nossa prioridade é concluir um novo acordo ainda este ano, para que entre em vigor no início de 2026. Em junho, vamos apresentar aos trabalhadores uma proposta de caderno reivindicativo e, antes das férias, teremos tudo preparado para solicitar formalmente à empresa o arranque das negociações no últimos trimestre do ano.
Além da estabilidade laboral que outros temas estarão em cima da mesa nas negociações?
A estabilidade laboral e social não depende apenas dos trabalhadores — a empresa também tem de assumir a sua responsabilidade. A Volkswagen Autoeuropa encontra-se numa posição confortável dentro do grupo, algo reconhecido até por responsáveis da própria empresa. Por isso, acreditamos que é possível alcançar um bom acordo, que valorize o esforço diário de todos os trabalhadores. Nas próximas negociações, vamos focar-nos em temas como aumentos salariais, zonas salariais estagnadas, plano demográfico, prémios, regalias sociais, entre outros.
Qual é a visão da CT sobre o impacto do lançamento do novo T-Roc na fábrica?
O novo T-Roc marca a fase final de um processo de lançamento que envolveu muito empenho e profissionalismo por parte de todos os trabalhadores. O seu arranque em setembro simboliza a consolidação de todo esse trabalho, e estamos confiantes de que será um sucesso.
Que desafios e oportunidades representam os novos modelos para os colaboradores da produção?
Além do novo T-Roc conseguimos também que o Grupo Volkswagen tomasse a decisão do ID. Every1 para a Volkswagen Autoeuropa, uma boa aposta para Portugal. Os maiores desafios dos novos modelos serão, como sempre, a adaptação. A introdução de novos processos, componentes e exigências traz consigo a necessidade de melhorias, especialmente ao nível da ergonomia. É fundamental aproveitar esta fase para implementar soluções que reduzam o esforço físico em estações mais exigentes e contribuam para diminuir o número de doenças profissionais. Já alertámos a empresa para a importância deste tema e acreditamos que, com o lançamento de novos modelos, há uma oportunidade real para avançar nesse sentido e este trabalho tem de ser feito.
O que representa, do ponto de vista dos trabalhadores, a produção do ID. Every1 em Palmela?
A produção do ID. Every1 representa futuro. Para os trabalhadores da Volkswagen Autoeuropa, esta conquista tem um enorme valor estratégico e é o resultado do esforço coletivo de todos, sem exceção. Trata-se de uma grande oportunidade, mas também de um compromisso que deve passar pela valorização de quem, todos os dias, contribui para a excelência da nossa fábrica. Este modelo marca a entrada da Volkswagen Autoeuropa no mundo da mobilidade elétrica — algo fundamental e que nos dá uma perspetiva de longo prazo, assegurando postos de trabalho para os próximos anos, o que é muito importante para todos nós. Quando o ID. Every1 foi apresentado no Comité Mundial em Wolfsburg, questionámos diretamente a direção da Volkswagen sobre a possibilidade de produção em Palmela. A resposta foi que estávamos entre as fábricas em consideração. A partir daí, intensificámos os esforços e a pressão ao nosso nível (interna e externamente) para que este modelo viesse para a Volkswagen Autoeuropa, e felizmente, aconteceu.
Que expetativas existem quanto à transição para a mobilidade elétrica e ao papel da fábrica nesse processo?
As expetativas são elevadas. Apesar das dúvidas que ainda existem em torno da mobilidade elétrica, este é o rumo estratégico definido pelo Grupo Volkswagen. É, por isso, essencial que a Volkswagen Autoeuropa esteja integrada neste processo e assuma um papel ativo, garantindo o futuro da fábrica.
Há preocupações específicas entre os trabalhadores sobre as mudanças tecnológicas associadas à eletrificação?
Sim, existem preocupações, sobretudo no que toca à adaptação a novas funções e à possibilidade de desaparecimento de alguns postos de trabalho. É natural que as mudanças tecnológicas gerem incertezas, mas é fundamental que exista vontade de encontrar soluções, sempre que necessário. O mais importante é garantir que ninguém fica para trás e que os postos e condições de trabalho sejam assegurados para todos. A CT tem acompanhado esta mudança nas reuniões regulares e no chão de fabrica e a mesma deve ser feita com responsabilidade social, garantindo formação adequada, tempo para adaptação e valorização das competências. Acreditamos que, com o devido planeamento, esta transição pode ser uma oportunidade de crescimento para todos.
A Volkswagen tem atravessado um contexto desafiante na Alemanha. Qual é a leitura que a CT faz do momento atual e que possíveis impactos globais — e, em particular, para a Volkswagen Autoeuropa — poderão advir deste cenário?
A CT acompanhou com atenção o momento delicado vivido pelos colegas da Volkswagen, na Alemanha. Manifestámos sempre a nossa total solidariedade com os trabalhadores alemães, que enfrentaram um cenário difícil de incerteza e instabilidade. Este momento evidenciou a união dos trabalhadores do Grupo Volkswagen na defesa do emprego, uma causa comum a todos. Reafirmamos que a transição não pode ser só responsabilidade dos trabalhadores, devendo a reestruturação seguir princípios de justiça e responsabilidade social. Neste contexto, e respondendo diretamente à pergunta, é importante sublinhar que o cenário vivido na Alemanha não é replicável nem comparável à realidade da Volkswagen Autoeuropa, onde mantemos uma posição sólida, com elevados níveis de produtividade, estabilidade e um forte compromisso por parte dos seus trabalhadores. É por estas razões que não aceitaremos que o que se passou em dezembro na Alemanha seja usado como argumento para restringir aumentos salariais, limitar direitos laborais ou travar a justa valorização dos trabalhadores da Volkswagen Autoeuropa. A nossa solidariedade com os colegas da Alemanha mantém-se inabalável e, felizmente, foi possível chegar a um acordo. No entanto, esse contexto não deve ser utilizado para impor contenção onde não existe justificação económica ou produtiva. O contexto português é distinto e deve ser tratado como tal, com respeito e reconhecimento pelo esforço dos trabalhadores, que, ano após ano, demonstram profissionalismo, empenho e dedicação.
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